é, não adianta, esse é obra-prima forte mesmo. o Fuller mostra aqui que dá pra juntar tudo no pacote, clichês, sociologia, trilha sonora, ENQUADRAMENTOS DO CARALHO, polêmica, etc, sem perder a mão. a questão é que, ele pega tudo e faz da forma mais direta possível. trata do racismo sem nenhuma sutileza (e quem disse que sutileza é qualidade, necessariamente?), entra pela porta dando um bico, esfrega na cara do público médio americano (e do mundo, course) – muito bem representado pelo velhinho simpático e repugnante, dono do cão – a sua hipocrisia.
um povo que está tão evoluído que, prescinde de um Star Wars (quem viu entenderá a raferência hehe) da vida, sequer soube lidar com uma questão tão… tão… simples? quanto o racismo. simples do ponto de vista de que é uma imbecilidade tão óbvia que, bom… enfim. e fora que ele filma o cão, dando indícios claros de que ele não é o verdadeiro culpado, não nos faz acusá-lo, mas também não nos faz aceitá-lo, o que é pior, já que a gente não sabe bem o que quer em relação a ele. fica aquela coisa de se autopodar. a sequência final é bem ilustrativa disso, ao passo que, ao que parece, o cão está, de fato, curado. a câmera vem flutuando, girando, mostra a feição dele, língua pra fora, simpático… gira, gira, quando fecha os 180º, bom… ali está: a outra face, a raiva estampada na cara do bicho, essa dualidade (sem contar que, ali a gente vê, que não só é um racista, mas um assassino nato e te pergunta: há ressocialização? nah, mete um tiro nessa praga). o Fuller conseguiu mostrar a dualidade através da imagem em questão de segundos, e com um giro de câmera excepcional. e nem vou citar as câmera lenta, esse cara, definitivamente, sabe usá-la (a cena acima que o diga). dá mais pena ainda daquele vômito que atende pelo nome de Crash.
nota: 4/4




